Outono

Eu sempre gostei das tardes de outono, dia nublado, vento fraco. Eu sempre gostei da sensação que isso causava em mim, e de como era gostoso dividir isso com você. Me pego pensando o tempo todo dessa saudadezinha que eu sinto do que você era, do que nós eramos, de como eu não sinto vontade nenhuma de que isso volte um dia a acontecer, porque eu me sinto tão feliz e tão plena de ter vivido isso tudo com você num determinado momento, que tenho medo de querer mais, de ter mais, e não ter essa lembrança tão perfeita que eu tenho de como era o teu sorriso calmo e sereno quando estavamos juntos, que me passava a maior tranquilidade e segurança que todo o resto não me passava e nem chegava perto de passar. A melhor lembrança que eu tenho do que você foi pra mim, é o outono, depois de você o outono nunca mais foi igual pra mim (e eu sei que no fundo, você também pensa assim). 

Só ele conheceu uma mulher corajosa que admitiu todos os medos, todas as neuroses,  todas as inseguranças, toda a parte feia e real que todo mundo quer esconder com chapinhas, peitos falsos, bundas falsas, bebidas, poses, frases de efeito, saltos altos, maquiagem e  risadas altas. Ninguém nunca me viu tão nua e transparente como você, ninguém nunca soube  do meu medo de nadar em lugares muito profundos, de amar demais, de se perder um pouco de  tanto amar, de não ser boa o suficiente. Só ele viu meu corpo de verdade, minha alma de verdade, meu prazer de verdade,  meu choro baixinho embaixo da coberta com medo de não ser bonita e inteligente.  Só para ele eu me desmontei inteira porque confiei que ele me amaria mesmo eu sendo desfigurada, intensa e verdadeira, como um quadro do Picasso. (Tati bernardi)

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